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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

A arrogância petista

“Se não há autocrítica, nós fazemos a crítica”.

Wellington Komunist cientista social e ativista do Coletivo de Esquerda Força Ativa e membro do fórum hip hop SP
Essa breve reflexão surge no atual cenário da conjuntura política brasileira marcada por mais duas derrotas do partido dos trabalhadores: o processo de impeachment e o saldo negativo nas eleições municipais.
Mesmo a partir das várias derrotas que o partido tem colecionado sua militância fiel, seus membros partidários, não traçam autocríticas, não refletem sobre a própria prática, que em certo sentido, tem levado o partido a se equiparar com as velhas formas de representação partidária até mesmo de setores mais conservadores, da velha política tradicional que se arrasta pela história política brasileira.
Cabe anunciar também que antes de tudo, existe vida para além do PT, existe luta para além do PT, é necessário este lembrete num momento crucial que nós estamos presenciando.
Praticamente as últimas eleições para presidente onde o PT se saiu vitorioso com e reeleição de Lula e as vitórias de sua sucessora Dilma Rousseff, temos nos deparado com alguns argumentos e acusações a quem no campo da esquerda tenta buscar outra alternativa, seja no voto nulo ou em algum candidato de outros partidos da chamada “esquerda”, isso se tratando de pleito eleitoral, sabemos bem que a luta vai muito além. 
Por outro lado, faz-se necessário apontar que quando falamos em “esquerda” estamos nos referindo a um tipo de “esquerda” dentro do que é oferecido no jogo da democracia capitalista.
Para quem visualiza outras alternativas que não seja o PT são acusados pelos “petistas” de fechar com a direita, de ser responsável por uma possível derrota do PT, por não querer unidade na “esquerda”, uma vez que só em torno do PT é possível unidade e entre outras acusações.
Parece que nos tornamos refém de um partido político que não representa mais os anseios da classe trabalhadora, a isso não existe mais dúvidas, basta analisarmos as alianças que o PT realizou com os setores conservadores em nome de uma suposta governabilidade, na verdade, se rendeu as regras de funcionamento da democracia capitalista que precisa de um gestor capaz de encampar a fórmula mágica do Capital: crescimento econômico e tutela da classe trabalhadora, dos movimentos sociais.
Pelo menos por um tempo, o PT era o partido que mais teve êxito em manter uma política em prol de algumas frações da burguesia brasileira, após não ser mais capaz de trazer essa tranquilidade para classe que domina, o próprio partido foi arrancado de forma brusca da gestão do Estado.
Mesmo antes do golpe temos que lembrar que a própria Dilma, iniciava uma agenda contra a classe trabalhadora que estava sendo chamada de “ajuste fiscal”. Basicamente num ato de desespero, talvez, para ter apoio político de uma base que já não o sustentava, o próprio Lula que a antecedeu, se aliou com os setores conservadores e na época seu discurso esteve totalmente alinhado com os anseios dos grupos empresariais de um lado, e do outro, tentava ali contemplar a classe trabalhadora, essa dúbia política pode ser simplificada a nível dos programas sociais, ou seja, para a existência de um bolsa família haveria que ter uma “bolsa empresarial”.
Passando pelo resultado das eleições municipais o que vimos foi mais uma derrota do partido dos trabalhadores. Ainda muitos militantes acreditam no partido, alguns argumentos vem de cunho emocional de pessoas que mantém vínculo afetivo com a história do partido que ajudou a fundar e a construir.
Não assumem que a derrota, em certa medida, é obra de práticas equivocadas do próprio partido e que se reflete no resultado de suas ações.
Os petistas precisam justificar sua derrota e o faz culpando os outros, não refletem sobre a própria prática, não faz uma correta avaliação, acusam quem optou pelo voto nulo, acusam a população periférica de não ter consciência (como se isso fosse possível), procuram por todos os meios se eximirem dos próprios equívocos se colocando moralmente a cima de qualquer erro.
São nessas brechas que moram a arrogância petista, a prática de apontar o dedo e procurar culpados fora de seus círculos, isso não vem de hoje, já vem há mais de uma década, nos querem reféns de suas práticas, nos colocam numa visão reducionista da realidade e de total maniqueísmo: ou o PT ou o retrocesso.
Até quando teremos que ser refém de um partido dos trabalhadores que não representa a classe?
E quando fazemos as críticas somos novamente rotulados e acusados. Por isso, que aqui é necessário retornarmos uma ideia do início do texto: “existe vida, existe luta para além do PT”.
Não vou aqui entrar no mérito da gestão do PT desde a eleição de Lula, é nítido alguns avanços, mesmo que de forma bem limitada, com os programas sociais, ao mesmo tempo o avanço dos lucros da burguesia, isso é visível, porém os métodos para se manter na gestão do Estado foram os já conhecidos há tempos.
O PT com suas alianças conseguiu ressuscitar vários partidos da ordem burguesa que eram, até então, inexpressivo na política, bem como algumas figuras da política tradicional ultrapassadas, graças ao PT voltaram a ter interferência em setores estratégicos do governo.
A política de trocas de apoio por cargos vieram nessa linha, em contrapartida, o partido vai se putrificando a cada processo eleitoral, enforcando-se nas próprias cordas, golpeado pelo vice de sua chapa, como diria o ditado “seria cômico se não fosse trágico”, se afasta dos movimentos sociais rompendo diálogos, mesmo com movimentos do porte do MST (Movimento dos trabalhadores rurais sem terra) que sempre o apoiou publicamente.
Concordando neste aspecto com Frei Betto que em seu artigo (Nós erramos) diz que:
 “Fomos contaminados pela direita. Aceitamos a adulação de seus empresários, usufruímos de suas mordomias, fizemos do poder um trampolim para a ascensão social”.
Esse e outros pontos deve entrar numa avaliação sobre o partido, sobre suas práticas, se assemelhando a condição de partido que se utiliza das velhas práticas elitistas da direita conservadora para se manter na gestão do Estado.
Portanto, se não há auto crítica é nosso dever fazermos a crítica, mesmo sabendo das acusações que iremos sofrer de uma visão míope e dogmática de seus fiéis militantes petistas que ainda esperam uma espécie de “refundação do partido”, de uma suposta disputa que possa levar o partido para a esquerda. Sabemos bem que para quem ajudou a construir um partido desse porte, dedicando sua vida há décadas de luta, é bem difícil se colocar numa outra posição, porém, pelo avanço das lutas é necessário visualizarmos outros horizontes, para o atual momento tudo indica que o PT não nos representa.


Outubro de 2016 

Um comentário:

Reginaldo Bispo disse...

Creio que Wellington Komunist fez um texto, muito fiel ao pensamento de muitos que ajhudaram a construir o PT e votaram em seus parlamentares, Lula e Dilma. Tenho a acrescentar que diferente daquele ditado que diz: "É o olho do dono que engorda seus porcos". Não estou aqui chamando ninguém de porco, até porque, apostei neste projeto até a primeira eleição do Lula, depois afastado, ainda dei-lhe um voto de confiança na reeleição. Com Dilma não, votei nulo 02 vezes.

A expressão quer dizer por outros caminhos, o mesmo que "Quem ama, cuida". A direção e a militancia pequenoburguesa e intelectual do PT, não cuidou de seu patrimonio social, pois achou que bastava seu paternalismo: Deixem que faremos tudo por vocês! Ou enquanto davam um frango a mais para o pobre [uma conquista é verdade], distribuia o peso do mersmo em diamantes para os ricos, numa gradação de dimensões que ia dos R$ 14 bilhões de reais de financiamento á agricultura familiar [responsavel por 90% da comida na mesa do brasileiro], á R$ 170 bilhões para o agro negocio. O mesmo para os necessitados de moradia popular e para as construtoras, ou para os bancarios e os banqueiros, os operarios e as montadoras. Enquanto isso, exigiam a desorganização e a não mobilização do Movimento popular e sindical, pelo risco da ingovernabilidade, de um governo "em disputa". Governo este que já se encontrava dominado pela canalha do PMDB e os partidos de direita no governo. Ironicamente, até a primeira eleição de Dilma, a oposição em sua incompetencia, não conseguia pregar um discurso de maleficios no PT. Ironicamente, os aliados [de direita, sempre], aliaram-se à principal e incopetente oposição do DEM e do PSDB, para darem golpe em Dilma.