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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

O significado da consciência negra

“Autoestima é o princípio, revolução é a meta”
Wellington Komunist cientista social e ativista do Coletivo de Esquerda Força Ativa, membro do Fórum Hip Hop SP

Pensar em consciência negra nos remete a uma reflexão mais profunda sobre a problemática da própria tomada de consciência, este é um problema histórico no campo dos oprimidos.
A tomada da consciência negra perpassa sobretudo pelas dimensões objetiva e subjetiva numa relação sempre dialética que envolve percepção e aceitação de ser negro, se perceber enquanto pertencente ao grupo oprimido e a partir disso, ser parte orgânica das mobilizações que constituem a resistência no campo da luta negra.
A consciência “de si” e “para si” no contexto do combate ao racismo, nos mostra que não basta apenas se aceitar enquanto negro, é necessário ir muito além do mero ato que em si já traz um grande avanço.
No campo da luta se limitar apenas na aceitação, no reconhecimento cultural e na estética negra é percorrer apenas um trecho do ardo caminho que temos a seguir rumo a uma luta histórica que vem sendo travada contra o racismo.
A consciência negra nos permite ir além, unificar as formas de luta contra o racismo, reconhecer a forma coletiva de organização para a emancipação, definir bem as bandeiras de lutas, bem como o inimigo a ser combatido.
O escravizado africano em território brasileiro queria, primeiramente, apenas ser livre, lutou incessantemente e de diversas formas pela sua libertação.
Inicialmente de forma individual, contra a captura em solo africano que se dava de forma violenta por meio das armas, acorrentados, atados, aprisionados, conduzidos como se fossem mercadorias humanas em deslocamento até o transporte marítimo, chamado pela historiografia oficial de “navio negreiro”, consequentemente nas travessias do oceano atlântico que duravam dependendo da região africana, aproximadamente até três meses conforme os registros históricos apontam, o navio era dividido em seus patamares os conduziam como se fossem objetos empilhados, deitados ou sentados, porém sempre amarrados.
Mesmo nesse ambiente o conflito estava instaurado e a luta sempre tencionada, uns atiravam-se ao mar, e sob determinadas condições desumanas a própria morte significava um ato de liberdade.
Posteriormente, os sobreviventes desta traumática travessia do atlântico, travavam outras várias batalhas em solo americano. O opressor produzia suas técnicas de dominação, castigos perversos, instrumentos de torturas, legislação repressora, entre outros mecanismos de coerção.
Mesmo assim, a luta era travada de forma diversa e ininterrupta, a sabotagem na produção, o confronto direto com o opressor mais próximo, as várias fugas, as expropriações, as primeiras formas de guerrilhas, as insurreições, por fim, os quilombos.  
Em todas as fases da história do Brasil, o africano escravizado deixou seu legado de luta e resistência de diversas formas, em todas as lutas a cultura aparece junto como parte fundamental da luta.
São esses processos de luta que forma a própria essência e dá significado e sentido aquilo que chamamos de consciência negra, todo esse legado nos apresenta conteúdo e forma de um rico histórico e acúmulo de experiências de lutas.
Na história contemporânea o confronto permanece constantemente contra o racismo, o genocídio, os métodos de barragens que não nos permite ascensão social e mobilidade social, contra um padrão eurocêntrico, contra o encarceramento em massa de parte da juventude negra e todas as consequências devastadoras que são provocados pelo racismo a brasileira.
Para continuarmos a grande luta travada por nossos ancestrais, desde a invasão europeia em África, é necessário, dar procedimento o que até tem sido feito, para além da estética, para além dos elementos culturais, ter como ponto de partido o resgate da autoestima visando a emancipação.
No tempo presente, o significado da consciência negra ainda passa pelas lutas, além disso falta muito a percorrer, a avançar, sem lutar não será possível darmos passos significativos na luta contra o racismo, o protagonismo do povo negro é essencial para o sucesso e avanço das lutas, já que são os principais agentes no conflito e os mais afetados.
Aos que vieram antes e lutaram por nós, nossa verdadeira homenagem.
Valeu Dandara!
Valeu Zumbi!
E tantos outros homens e mulheres negras que lutaram por todos nós!




Indicação de leitura
BIKO, Steve. A definição da consciência negra. Disponível em: http://www.geledes.org.br/definicao-da-consciencia-negra/ Acesso em 26/10/2016.
MOURA, Clovis. Rebeliões da Senzala, quilombos, insurreições e guerrilhas. São Paulo: Editora Anita Garibaldi, 2014.
_____________. Dialética Radical do Brasil Negro. São Paulo: Editora Anita Garibaldi, 2014.


sexta-feira, 14 de outubro de 2016

A arrogância petista

“Se não há autocrítica, nós fazemos a crítica”.

Wellington Komunist cientista social e ativista do Coletivo de Esquerda Força Ativa e membro do fórum hip hop SP
Essa breve reflexão surge no atual cenário da conjuntura política brasileira marcada por mais duas derrotas do partido dos trabalhadores: o processo de impeachment e o saldo negativo nas eleições municipais.
Mesmo a partir das várias derrotas que o partido tem colecionado sua militância fiel, seus membros partidários, não traçam autocríticas, não refletem sobre a própria prática, que em certo sentido, tem levado o partido a se equiparar com as velhas formas de representação partidária até mesmo de setores mais conservadores, da velha política tradicional que se arrasta pela história política brasileira.
Cabe anunciar também que antes de tudo, existe vida para além do PT, existe luta para além do PT, é necessário este lembrete num momento crucial que nós estamos presenciando.
Praticamente as últimas eleições para presidente onde o PT se saiu vitorioso com e reeleição de Lula e as vitórias de sua sucessora Dilma Rousseff, temos nos deparado com alguns argumentos e acusações a quem no campo da esquerda tenta buscar outra alternativa, seja no voto nulo ou em algum candidato de outros partidos da chamada “esquerda”, isso se tratando de pleito eleitoral, sabemos bem que a luta vai muito além. 
Por outro lado, faz-se necessário apontar que quando falamos em “esquerda” estamos nos referindo a um tipo de “esquerda” dentro do que é oferecido no jogo da democracia capitalista.
Para quem visualiza outras alternativas que não seja o PT são acusados pelos “petistas” de fechar com a direita, de ser responsável por uma possível derrota do PT, por não querer unidade na “esquerda”, uma vez que só em torno do PT é possível unidade e entre outras acusações.
Parece que nos tornamos refém de um partido político que não representa mais os anseios da classe trabalhadora, a isso não existe mais dúvidas, basta analisarmos as alianças que o PT realizou com os setores conservadores em nome de uma suposta governabilidade, na verdade, se rendeu as regras de funcionamento da democracia capitalista que precisa de um gestor capaz de encampar a fórmula mágica do Capital: crescimento econômico e tutela da classe trabalhadora, dos movimentos sociais.
Pelo menos por um tempo, o PT era o partido que mais teve êxito em manter uma política em prol de algumas frações da burguesia brasileira, após não ser mais capaz de trazer essa tranquilidade para classe que domina, o próprio partido foi arrancado de forma brusca da gestão do Estado.
Mesmo antes do golpe temos que lembrar que a própria Dilma, iniciava uma agenda contra a classe trabalhadora que estava sendo chamada de “ajuste fiscal”. Basicamente num ato de desespero, talvez, para ter apoio político de uma base que já não o sustentava, o próprio Lula que a antecedeu, se aliou com os setores conservadores e na época seu discurso esteve totalmente alinhado com os anseios dos grupos empresariais de um lado, e do outro, tentava ali contemplar a classe trabalhadora, essa dúbia política pode ser simplificada a nível dos programas sociais, ou seja, para a existência de um bolsa família haveria que ter uma “bolsa empresarial”.
Passando pelo resultado das eleições municipais o que vimos foi mais uma derrota do partido dos trabalhadores. Ainda muitos militantes acreditam no partido, alguns argumentos vem de cunho emocional de pessoas que mantém vínculo afetivo com a história do partido que ajudou a fundar e a construir.
Não assumem que a derrota, em certa medida, é obra de práticas equivocadas do próprio partido e que se reflete no resultado de suas ações.
Os petistas precisam justificar sua derrota e o faz culpando os outros, não refletem sobre a própria prática, não faz uma correta avaliação, acusam quem optou pelo voto nulo, acusam a população periférica de não ter consciência (como se isso fosse possível), procuram por todos os meios se eximirem dos próprios equívocos se colocando moralmente a cima de qualquer erro.
São nessas brechas que moram a arrogância petista, a prática de apontar o dedo e procurar culpados fora de seus círculos, isso não vem de hoje, já vem há mais de uma década, nos querem reféns de suas práticas, nos colocam numa visão reducionista da realidade e de total maniqueísmo: ou o PT ou o retrocesso.
Até quando teremos que ser refém de um partido dos trabalhadores que não representa a classe?
E quando fazemos as críticas somos novamente rotulados e acusados. Por isso, que aqui é necessário retornarmos uma ideia do início do texto: “existe vida, existe luta para além do PT”.
Não vou aqui entrar no mérito da gestão do PT desde a eleição de Lula, é nítido alguns avanços, mesmo que de forma bem limitada, com os programas sociais, ao mesmo tempo o avanço dos lucros da burguesia, isso é visível, porém os métodos para se manter na gestão do Estado foram os já conhecidos há tempos.
O PT com suas alianças conseguiu ressuscitar vários partidos da ordem burguesa que eram, até então, inexpressivo na política, bem como algumas figuras da política tradicional ultrapassadas, graças ao PT voltaram a ter interferência em setores estratégicos do governo.
A política de trocas de apoio por cargos vieram nessa linha, em contrapartida, o partido vai se putrificando a cada processo eleitoral, enforcando-se nas próprias cordas, golpeado pelo vice de sua chapa, como diria o ditado “seria cômico se não fosse trágico”, se afasta dos movimentos sociais rompendo diálogos, mesmo com movimentos do porte do MST (Movimento dos trabalhadores rurais sem terra) que sempre o apoiou publicamente.
Concordando neste aspecto com Frei Betto que em seu artigo (Nós erramos) diz que:
 “Fomos contaminados pela direita. Aceitamos a adulação de seus empresários, usufruímos de suas mordomias, fizemos do poder um trampolim para a ascensão social”.
Esse e outros pontos deve entrar numa avaliação sobre o partido, sobre suas práticas, se assemelhando a condição de partido que se utiliza das velhas práticas elitistas da direita conservadora para se manter na gestão do Estado.
Portanto, se não há auto crítica é nosso dever fazermos a crítica, mesmo sabendo das acusações que iremos sofrer de uma visão míope e dogmática de seus fiéis militantes petistas que ainda esperam uma espécie de “refundação do partido”, de uma suposta disputa que possa levar o partido para a esquerda. Sabemos bem que para quem ajudou a construir um partido desse porte, dedicando sua vida há décadas de luta, é bem difícil se colocar numa outra posição, porém, pelo avanço das lutas é necessário visualizarmos outros horizontes, para o atual momento tudo indica que o PT não nos representa.


Outubro de 2016