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terça-feira, 19 de abril de 2016

Chacina na sede da Pavilhão Nove completa um ano

Falta de punição para o crime, que só tem um preso, tornou a data ainda mais difícil para familiares
Por: Amanda Gomes
amanda.gomes@diariosp.com.br
19/04/2016 09:56
  

Familiares e amigos das oito vítimas executadas há um ano pediram Justiça em ato na Praça da Sé / Nelson Nunes/ Diário de SP
Toda vez que a comerciante Andrea Garzillo, de 38 anos, acha que a morte de seu filho Jhonatan Fernando Garzillo, 21, foi apenas um pesadelo, tira da gaveta a foto do rapaz com as mãos na cabeça e ensanguentado, e acorda para a realidade cruel. Nesta segunda-feira (18), um ano após a chacina da torcida organizada do Corinthians Pavilhão Nove, que deixou oito mortos, as mães e outros parentes ainda tentam amenizar a dor clamando por Justiça.
A falta de punição para o crime, que só tem um preso, o ex-policial militar Rodney Dias dos Santos, tornou a data ainda mais difícil, principalmente pela lentidão da Justiça e do Ministério Público. Outro PM, Walter Pereira da Silva Júnior, chegou a ser preso, mas foi solto em dezembro do ano passado.
As vítimas da chacina: Fábio, Ricardo, André, Matheus, Jhonatan, Marco, Mydras e Jonathan / Arquivo Pessoal
Nesta segunda, a comerciante foi ao cemitério prestar homenagem a seu filho. Ela disse que antes de morrer, ele conseguiu realizar o sonho de ser pai “Minha neta tinha 8 meses quando o Jhonatan se foi. Ele lutou muito para ser pai porque a mulher dele já tinha perdido um bebê.”
Andrea tenta o conforto se dedicando à neta . “A dor é insuportável e para aguentar é preciso se apegar em alguma coisa. Eu me apeguei em Deus, na minha neta e na minha filha de 13 anos. Estou viva por causa delas. Guardo a foto do Jhonatan porque preciso trazer essa realidade para mim. Tem dia que é impossível de acreditar.”

Assim como ela, a dona de casa Roseli Maria Fonseca, 41, também tenta suportar o sofrimento guardando todas as lembranças de seu filho Matheus Fonseca de Oliveira, 19, outra vítima da matança.
Roseli, mãe de Matheus, pede justiça / Nelson Nunes/Diário SP
A cama dele está montada com os adesivos do Corinthians. Os pôsteres e camisas do time do coração também estão guardados. A dor é tanta que em uma gaveta há até um pedaço do ovo de Páscoa que guardou para Matheus comer.
“O ovo está na embalagem do mesmo jeito. Não consigo mexer em nada. É como se ele estivesse presente em tudo. Tenho força por causa dos meus outros quatro filhos que precisam de mim, mas dói muito”, disse.
Roseli explicou que Matheus, que trabalhava em um supermercado, era quem sustentava a casa para ela poder cuidar dos outros filhos pequenos. “Ele me ajudava muito. Agora vivo apenas com a ajuda dos meus pais. Fiquei sabendo da morte dele pelo Facebook. Fomos abandonados”, explicou.
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Pai da vítima Marco Antônio Corassa Júnior, 19, o empresário Marco Corassa, 55, sobrevive ao duro golpe lutando por justiça. “Cadê o terceiro suspeito? Cadê o MP que pediu para soltar um e não mandou investigarem melhor?”, questionou.
O empresário contou que no último domingo (17) recebeu um DVD, uma homenagem dos familiares, com as fotos de Marco desde criança. “Tenho muita saudade. É uma mistura de medo, dor, revolta. Meu filho era estudante, trabalhador e sempre o criei para o bem. Vivo de lembranças. Quando não choro de dia, faço isso na madrugada. É muito difícil”, desabafou.
Na casa de Lana Batista, 26, mulher do compositor e sambista Mydras Schmidt, 38, os prêmios que ele ganhou por causa de suas canções – um deles do DIÁRIO, o Troféu Nota 10 – estão guardados na estante. Nestes últimos 12 meses, sua vida mudou de cabeça para baixo.
Lana, esposa de Mydras, conta que sua vida mudou muito depois do assassinato dele / Nelson Nunes/Diário SP
“Até hoje não consegui me levantar.  Tenho dois filhos para criar (2 e 6 anos) e, além da dor de perder meu marido, fiquei sem casa porque não consegui pagar o aluguel. Se não fosse pelos meus pais, estaríamos morrendo de fome”, disse.
Ela afirmou não crer mais em justiça. “Um lado meu grita por isso e o outro chora. Não acredito mais que algo será feito. Todos os dias fico me torturando em pensar que ele sofreu, que viu a morte dos amigos  e, depois, ficou 30 minutos agonizando. Minha filha achava que o pai morreu de acidente de moto, mas já fala que foram bandidos que o mataram na motocicleta. Tem noção do que é ouvir isso?”, revoltou-se.
Ontem, familiares amigos fizeram um ato na Praça da Sé, no Centro, para pedir justiça e lembrar das oito vítimas.

DEPOIMENTO 
Joselita Maria Neves, 62 anos, dona de casa
"O assassino do meu filho comeu na minha mesa", conta Joselita, mãe de Fábio / Nelson Nunes/Diário SP
"Hoje (nesta segunda), assim como todos os outros dias, é de muita saudade e tristeza. Cada dia que passa ficamos mais decepcionados com a Justiça porque nada está sendo feito. O assassino do meu filho já comeu na minha mesa. Minha dor é grande, principalmente, em saber que o poder público e a imprensa falaram que o alvo era meu filho (Fábio Neves Domingos).
É muito difícil para uma mãe ouvir isso, é duro. Na época, as pessoas falaram para eu não sair de casa porque os outros parentes estavam revoltados. Mas era tudo mentira. Eles sempre me apoiaram e até hoje fazem isso. Nós não acreditamos nessa versão, mas também nunca deram explicação sobre o que aconteceu ou o motivo. Falaram que ele era traficante, mas nunca nenhum policial bateu na minha porta. Se ele era o alvo, como dizem, o assassino sabia tudo da vida do meu filho e poderia matá-lo em outro lugar. Ninguém provou nada contra ele.
Tenho forças porque meu filho me deixou um netinho, que tem o nome dele. Agora está com 3 meses. Ele morreu sem saber que seria pai. Acabaram com nossa vida e aos poucos o poder público está esquecendo da história. Mas jamais vamos esquecer".
Local da chacina virou um barracão de escola de samba / Nelson Nunes/Diário SP
Torcida abandona barracão e se muda para Itaquera
O que sobrou da sede da Pavilhão Nove, que fica embaixo da Ponte dos Remédios, na Zona Oeste, foram as duas traves de gol. Após a chacina, a torcida organizada se mudou para Itaquera, na Zona Leste, que na última sexta-feira (15), foi interditada pela Prefeitura, a pedido da Secretaria de Segurança Pública, durante uma operação, por falta de vistoria do Corpo de Bombeiros.
Agora, o prédio velho é ocupado irregularmente pela escola de samba da torcida organizada. O responsável por cuidar do local é Ivan Menezes, 56, que mora ali há dez anos. “Eu não tenho medo de ficar aqui, preciso trabalhar. Todo dia passo onde meninos foram mortos, faço uma oração por eles e agradeço por minha vida. Não morri por questão de minutos”, afirmou ele.
O fato de o prédio ainda estar aberto revolta os parentes das vítimas que pedem o fechamento do local. “Dói muito ver aquele lugar aberto e me pergunto o motivo de estar funcionando. Estou fazendo  abaixo-assinado para pedir a interdição”, explicou o empresário Marco Corassa, pai de uma das vítimas.
A  Prefeitura disse que foi solicitada autorização para uso da área em ensaios carnavalescos, mas o pedido foi negado. Os responsáveis foram intimados para desocuparem o local.
Bandeira em homenagem aos mortos estendida durante o ato / Nelson Nunes/Diário SP

‘Agiram como terroristas do Estado Islâmico’
Segundo promotor, os executores mandaram as vítimas se ajoelharem e dispararam na cabeça delas
por Ulisses de Oliveira - ulisses.oliveira@diariosp.com.br
Os acusados de matar os oito torcedores do Corinthians naquele 18 de abril de 2015 agiram como os terroristas do Estado Islâmico, jihadistas que vêm assombrando o mundo nos últimos anos com extermínios de suas vítimas pelo mundo.
Segundo o promotor responsável pela investigação da chacina da Pavilhão Nove, Rogério Leão Zagallo, as vítimas que sobreviveram à matança descreveram a cena de horror. “Foram postos em um círculo e executados com requinte de crueldade exagerado. As fotos da perícia comprovam isso.”
Sobre o processo, que está em fase final, Zagallo afirmou que as provas contra o único preso até hoje, o ex-policial militar Rodney Dias dos Santos, são robustas e ele “certamente” será condenado pelos oito homicídios.
“O motivo desse crime leva ao Rodney,  ao confronto dele com o Fábio (Neves Domingos, ex-presidente da organizada e inimigo declarado do acusado)  tanto  na administração da torcida como  em relação ao exercício do tráfico de drogas.”
Outro acusado pelo múltiplo homicídio, o PM Walter Pereira da Silva Júnior, que chegou a ser preso, mas foi solto para responder em liberdade, “provavelmente será inocentado”.
“Um faxineiro do local (que foi poupado) reconheceu Rodney, mas nunca demonstrou muita certeza da participação de Walter. Então, as informações sobre o Walter estão se perdendo”, afirmou.  Portanto, para o Ministério Público, o único alvo, agora, é Fábio. “As outras vítimas morreram porque estavam no lugar errado.”
Além do faxineiro, outro sobrevivente que conseguiu fugir da execução correndo afirmou ao MP sobre a  existência de um terceiro atirador. Essa informação ainda está sendo apurada em inquérito paralelo pelo DHPP (Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa). “De qualquer forma, há acusados não identificados”, admite o promotor.
Sobre as críticas dos familiares em relação à lentidão do processo e à soltura de Walter, Rogério  se defende. “Quem marca a data da audiência e manda ficar preso ou soltar é a juíza. Estão me criticando porque o Walter está livre, ms não há prova. O que querem que eu faça? É compreensível a crítica, mas eu ajo com a técnica.” Em  junho, a Justiça vai decidir se os dois réus serão levados a júri popular. 

RESPOSTA DA SECRETARIA DE SEGURANÇA PÚBLICA 
De 2015 até agora, estado registrou 13 matanças
Sobre o terceiro executor na chacina da Pavilhão Nove, a Secretaria de Segurança informou seguir tentando identificá-lo. Outras 11 matanças ocorreram no estado em 2015. Este ano uma foi registrada.
Sobre os casos ocorridos em Osasco e Barueri, em agosto, os inquéritos foram relatados e o Ministério Público denunciou oito suspeitos: sete PMs e um guarda-civil. Quatro deles seguem presos.
A polícia investiga os crimes da Vila Jacuí (2/2), do Parque Santo Antônio (7/3), do Jaçanã (9/4) e do Jardim São Luís (1/7) e segue tentando identificar os autores.
Em Mogi das Cruzes, três chacinas ocorreram no ano passado. Dois PMs estão presos por dois casos e o terceiro segue sem identificação de autoria. Sobre as mortes em Embu-Guaçu, o autor foi preso em flagrante. A respeito da execução de um grupo de jovens em Carapicuíba, três PMs foram presos e, depois, liberados. O caso de Caraguatatuba, no litoral, segue em apuração. Na chacina de Guarulhos, em 2 de janeiro, testemunhas ainda são ouvidas e ninguém foi identificado.
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