Translate

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Fala geografa Maria Adélia indicação do Forum Hip Hop MSP

LIÇÕES DE MILTON SANTOS, sobre o período popular da história e sobre o problema do negro no Brasil.
Maria Adélia aparecida de Souza
Professora titular de Geografia Humana da USP
São Paulo, 24 de junho de 2004.

ENTREGA DO PREMIO MILTON SANTOS
CÂMARA MUNICIPAL DE SÃO PAULO
24 DE JUNHO DE 2013.

SAUDAÇÕES
Na pessoa do vereador Nabil Bonduki, saúdo todas as autoridades presentes,
Senhoras funcionárias e funcionários da Câmara Municipal,
Ex-alunas e alunos do Professor Milton Santos,
Colegas, amigas e amigos do Professor Milton Santos,
Minhas senhoras e meus senhores

Sem dúvida alguma o PREMIO MILTON SANTOS instituído nesta casa por iniciativa do nobre vereador Nabil Bonduki, que revejo depois de 9 anos, nesta mesma cerimônia, se constitui numa das mais belas homenagens que se possa prestar ao professor Milton Santos. Esta casa e o vereador merecem dos amigos de Milton e dos cidadãos paulistanos e baianos uma moção de gratidão por esta iniciativa.

Considerando as circunstâncias em que vivemos no Brasil e na cidade de São Paulo nos últimos dias, através das múltiplas manifestações políticas que temos tido, gostaria de rapidamente tratar aqui, nesta cerimônia de dois temas relevantes inspirados na obra de Milton:


1. A emergência do Período Popular da Historia e o papel da metrópole, pois certamente é neste caldo que se enquadram as premiações;

2. Refletir sobre a população pobre e negra.

É, portanto, com muita emoção que retorno a esta casa, nove anos depois. Relembrando de Milton, acompanhando meu amigo num momento de rara alegria quando, aqui estivemos juntos para que ele recebesse o honroso título de cidadão paulistano. Trago na minha memória a sua alegria naquele dia e a importância que sempre deu a esta casa legislativa. 2

Aquele irredutível humanista viveu para o engrandecimento do ser humano. Sempre aprofundou o conhecimento das questões sociais, batalhando pelo retorno do humanismo, bandeira central de toda sua obra. “É preciso resgatar o humano na humanidade” repetia ele, insistentemente.
O que assistimos no Brasil hoje, manifestações e mobilizações em massa encontra abrigo nas teorias de Milton Santos. E, sem dúvida nenhuma as premiações feitas hoje aqui na Câmara Municipal de São Paulo, refletem isso.

Nas características deste período histórico, já quase moribundo, que ele denominou de técnico - cientifico - informacional está a gênese do período demográfico ou período popular da Historia.

O que é isso?

O lugar na obra de Milton Santos é “o espaço do acontecer solidário”. Este conceito – solidário – tão desgastado do século XX, por vezes confundindo-se com um assistencialismo pernicioso e alienante, ele vai resgatar como a nova possibilidade dos pactos sociais, de distintas naturezas.

Na minha leitura, esses pactos – entre as pessoas, entre as empresas e entre as instituições – só serão justos, humanos e generosos se forem estabelecidos como PACTOS TERRITORIAIS. Território aqui entendido, através do seu uso – afinal usamos o território para existir - e esse uso é político, ou seja, produto de relações sociais que no tempo presente são lideradas pelas relações de produção.
Em realidade se considerarmos o território usado como nosso abrigo, ou seja, como as possibilidades que temos para usá-lo e existir, mora aqui a grande discussão.

Lá nos lugares onde vivemos, onde usamos o território é que mora também a nossa felicidade, a nossa possibilidade de existir com dignidade. Todos os territórios da cidade precisam ser usados por creches, escolas, hospitais, comercio, indústria, ricos e pobres... Enfim, tudo o que existe ou precisamos para existir!

A cidade, portanto, precisa ser uma miscelânea, uma mistura de coisas. Só assim os guetos constituídos pelos usos específicos serão abolidos. Esta é a utopia que fundamenta os PACTOS TERRITORIAIS: a pactuação social que permitirá a TODOS OS CIDADÃOS conviverem juntos, vivenciando a grande exigência do século XXI que será a busca desenfreada pela PAZ através do respeito mútuo e da
CONVIVENCIA NA DIVERSIDADE.

É por isto que todos estão nas ruas.
E também porque neste período moribundo – técnico - científico - informacional – as informações, armas essenciais da política chegam a todos, sem mediações, pelos instrumentos técnicos disponíveis e que fogem a regulação das empresas, na sua difusão.

Curiosa e dialeticamente, quem produz celular ganha na produção e depois perde o controle sobre a funcionalidade desse objeto, diferentemente do radio ou da TV, onde as empresas controlam sua produção, seu uso e funcionalidade. Trata-se de um mundo novo, aonde as informações chegam diretamente, em tempo real lá nos lugares, onde as pessoas vivem juntas, solidariamente e se conhecem.

Não fora essa solidariedade sobre 3

a qual conhecemos tão pouco, os pobres das periferias e, especialmente os negros, não existiriam mais! Os índios já foram quase exterminados... mas reagem, bravamente, apoiados nas características desse novo período.

O PERIODO POPULAR DA HISTORIA CHEGA GRITANDO NAS RUAS POR MAIS JUSTIÇA, PARA QUE A TOTALIDADE DA CIDADE SEJA VISTA POR TODA A SOCIEDADE, PELOS GOVERNANTES E POR TODA CLASSE POLITICA. Desta vez sem a mediação das grandes mídias.
O que está nas ruas e buscando caminhos novos a partir de experiências da viva vivida é toda população interessada na construção de um país digno e justo.

Aonde tudo isso chegará?
Como saber, se as características mesmas destes tempos é a aceleração? Vivemos em um mundo aceleradamente mutante! O novo se cria a cada instante!
Certamente o que fundamentará esse caminho será a confiança que depositarmos uns nos outros, cada qual contribuindo com sua experiência vivida, com sua PRAXIS! Mas estou segura que o bom senso emergirá da SOLIDARIEDADE E DA GENEROSIDADE entre as pessoas. E a maioria que liderará esse movimento entende disso como minguem.
Parece-me que a ética não morreu e é a bandeira – como sempre foi – daqueles que sabem o que é lutar pela sobrevivência e pela vida a cada dia, a cada minuto, há séculos. Afinal a consciência de que somos humanos e como tal temos direitos e deveres é o fundamento dessa ética dos pobres. Eles são quem nos farão retomar a esperança na vida! Nisso são mestres!

E é a partir da vivencia do sentido de justiça, em seus lugares, que as pessoas, especialmente os pobres, constroem e construirão essa nova ética.

Daí a importância dos conceitos de LUGAR e TERRITÓRIO USADO, na perspectiva atual.
Precisamos nos preparar para os tempos que estão por vir e, rapidamente, lidarmos com a nova racionalidade do mundo que é POLITICA e não mais ECONôMICA.
Outro aspecto que quero, neste pouquíssimo tempo de que disponho é chamar a atenção para a condição existencial do patrono deste premio: SER NEGRO NO BRASIL.
Inspirei-me e uso palavras do próprio Milton e suas reflexões e naquelas de Waldomiro dos Santos Junior, seu biógrafo, para escrever e refletir sobre elas.

Sua condição negra, de uma elite negra ilustrada existente provavelmente apenas na Bahia, o transformou num dos personagens único da inteligência brasileira. E eles têm sido raros!!!
Intelectual rigoroso e incômodo exigia de todos posturas claras e inteligentes diante do mundo e da vida.

Assim, os brancos tentavam usa-lo e os negros muitas vezes não se conformavam com sua postura diante das lutas da “raça”. É impossível deixar de se intrigar com uma de suas frases mais lúcidas
referentes aos afrodescendentes brasileiros: os negros ainda sorriem, mas vão começar a ranger os dentes. ... é preciso que eles queiram ser a nação brasileira. 4

Milton Santos, pela sua vida, pelos anos de exílio, construiu uma consciência crítica, generosa, profunda e competente.

Milton possuía talento, rigor, coragem, ousadia, conhecimento.
É neste clima, com este rigor que nasce a obra revolucionária de Milton. Obra intrigante, profunda e que está ainda por ser conhecida e efetivamente usada no Brasil.

O premio Milton Santos se constitui numa excelente oportunidade para chamar a atenção sobre ela. E este era o principal desejo de Milton. Certamente esta é a melhor homenagem que poderíamos lhe prestar exatamente no dia de sua partida, 24 de junho de 2001, há 12 anos!
Formado em Direito, Milton Santos foi professor de matemática, jornalista cuja pena e texto eram temidos na Bahia, mas foi a Geografia que o seduziu.

Sua obra complexa e profunda vai revigorar a Geografia transformando-a num poderoso instrumento de conhecimento da sociedade e de possibilidade de construção do seu futuro.
Mas jamais tergiversou sobre a sua condição negra. Sabia perfeitamente que tanto o modelo cívico cultural quanto o modelo político brasileiro são heranças da escravidão. A escravidão não criou apenas a casa grande e a senzala, marcando indelevelmente o uso do território brasileiro, mas também até hoje as relações sociais do país perpetuando esse modelo excludente. A senzala hoje é toda periferia: a ela nada ou os restos, se houver!

Milton Santos sempre dizia não ser um cidadão integral deste país, com todas as exceções que tinha: neto de escravos, mas também de negros de classe média; erudito e reconhecido como um dos maiores intelectuais brasileiros do século XX!

Os negros no Brasil ainda são identificados pela cor e não pelos sujeitos que são ou representam! Tristemente em nosso país, quando se é negro dificilmente não se é pobre.

Mas a questão central, como sempre nos lembrava é a humilhação cotidiana. Difícil de escapar dela: pode ficar rico ou intelectual brilhante! Vivem os negros o medo permanente da humilhação.

Tendo vivido em vários continentes e também na Africa, Milton Santos sempre destacava o papel do negro na historia do Brasil. Aqui, “o fato de que o trabalho negro tenha sido, desde o início da historia econômica, essencial a manutenção do bem estar das classes dominantes deu-lhe um papel central na gestação e perpetuação de uma ética conservadora e desigualitária. Os interesses cristalizados produziram convicções escravocratas arraigadas e mantem estereótipos que ultrapassam os limites do simbólico e tem incidência sobre os demais aspectos das relações sociais.

Ao mesmo tempo a opinião pública foi, por cinco séculos treinada para desdenhar e, mesmo, não tolerar manifestações de inconformidade, vistas como um justificável complexo de inferioridade, já que o Brasil, segundo a doutrina oficial, jamais acolhera nenhuma forma de discriminação ou preconceito.”

A questão não é tratada eticamente. “Falta muito para ultrapassar o palavrório retórico e os gestos cerimoniais e alcançar a ação politica consequente.”

Ou os negros deverão esperar mais outro século para obter o direito a uma participação plena na vida nacional? Ou continuarão sendo objeto de genocídios como o que temos em nossa cidade? 5

No Brasil, a marca predominante é a ambivalência com que a sociedade branca dominante reage, quando o tema é a existência, no pais, de um problema negro.
Esse equivoco é também duplicidade, como bem resumiram Florestan Fernandes e Octávio Ianni, nossos mestres, para quem, entre nós não é feio ter preconceito de cor, mas manifestá-lo.
Por isso a discussão ou o enfrentamento da questão negra no Brasil é escorregadia.”

Uma dessas discussões, segundo Milton Santos é a perda de tempo com a semântica: falamos em preconceito, discriminação, racismo, etc. etc.... Uma fuga a verdadeira questão a ser respondida, ainda: ser negro no Brasil, o que é?

Sempre se perde tempo para resolver o problema da questão negra: para entrar na universidade é preciso esperar. Então: não as cotas!
O traço marcante que diz respeito a essa questão é a hipocrisia permanente, resultado de uma ordem racial, cuja definição é desde a base viciada”.
Ser negro no Brasil é ser objeto de um olhar vesgo e ambíguo. E, essa ambiguidade marca a convivência cotidiana, influi sobre o debate acadêmico e o discurso individualmente repetido é também, utilizado por governos, partidos e instituições.
A verdade é que aqui no Brasil o corpo da pessoa se impõe como uma marca visível e se privilegia a aparência como uma condição primeira da objetivação e de julgamento, criando uma linha demarcatória, que identifica e separa, a despeito das pretensões de individualidade e de cidadania do outro.

No Brasil onde a cidadania é mutilada, no caso dos negros é emblemática.
O homem é o seu corpo, a sua consciência, a sua sociabilidade, o que inclui a sua cidadania. Mas a conquista por cada um, da consciência, não suprime a realidade social de seu corpo nem lhe amplia a efetividade da cidadania.
Talvez essa seja uma das razões pelas quais, o debate sobre os negros é prisioneiro de uma ética enviesada. “Ser negro no Brasil é ser objeto de um olhar enviesado.”

A chamada boa sociedade parece considerar que há um lugar predeterminado, lá em baixo, para os negros e assim tranquilamente se comporta”. Logo, tanto é incomodo haver permanecido na base da pirâmide social, quanto haver subido na vida. Tudo é sempre motivo de constrangimentos e humilhações.
Temos aqui uma forma de apartheid à moda brasileira, contra a qual é urgente reagir se realmente desejamos integrar a sociedade brasileira, de modo que num futuro próximo ser negro no Brasil seja, também, ser plenamente brasileiro no Brasil.”

Se refletirmos sobre os ensinamentos de Milton, o tempo presente pode ser anunciador disso.
Tomara que sim!


Muito obrigada! Parabéns aos autores dos projetos premiados e a todos que se inscreveram. 

Nenhum comentário: